Artigo produzido no âmbito do Festival Literário da Madeira 2012




No âmbito do Festival Literário da Madeira realizado a 15, 16 e 17 de Março de 2012, escrevi sobre o debate produzido na mesa 1. 

Tema da mesa 1:


16 de Março de 2012

O tema da mesa 1, partindo de uma frase de Fernando Pessoa “Éramos felizes e não sabíamos” ao que se acrescentou “como a troika influenciou os nossos dias” contou com presença de Patrícia Reis, José Manuel Fajardo, Inês Pedrosa, Pedro Vieira e Rui Nepomuceno. Estes falaram sobre a história, a política, a cultura, o momento financeiro actual, a Troika e sobre como estes factores influenciam a nossa felicidade e criatividade.   

Durante anos os nossos políticos fizeram-nos acreditar que éramos ricos. Ao longo desse tempo projectamos as nossas vidas com base nesse pressuposto, mas agora há a Troika e vivemos tempos difíceis em Portugal. Os encargos financeiros austeros impostos pelos mercados financeiros ao povo português encaminham-nos para a falta de recursos, ao desemprego, aos cortes nos apoios sociais e à proliferação da miséria. Afinal, não éramos ricos. Mas éramos felizes? Podemos ser felizes?

Antes do 25 de Abril havia uma forma de infelicidade, a ditadura do Estado Novo, um sério inimigo da liberdade de expressão. O povo era reprimido pela PIDE e a criatividade era posta à prova. Por sua vez, a revolução de Abril de 1974,trouxe com ela alguma felicidade colectiva e a democracia. Na Madeira, segundo Rui Nepomuceno, começou a ficar o dinheiro dos impostos bem como mais algum que chegava do Terreiro do Paço. Era um sinal de felicidade. Construímos uma universidade mas, segundo o orador ao longo dos anos a cultura foi colocada em segundo plano pelos governantes.

Figura1 - Caricatura com a autoria de Stuart de Carvalhais. Diz a legenda: “ … procure vestir-se de modo a não prejudicar o rendimento dos colegas de trabalho.”
Interrogaram-se se a crise económica, a Troika ou a ditadura do Estado Novo eram sérios entraves à criatividade e em que momento na história se escreveu com maior qualidade. Também questionaram-se se a literatura é melhor quando somos felizes ou quando somos infelizes. Aparentemente, para os oradores, os factores referidos não são determinantes, porque existem bons exemplos, alegres e tristes, na literatura antes e pós 25 de Abril.  

Num outro ponto de vista, e analisando ainda alguns factores, como referiu Pedro Vieira, a repressão e a crise económica dão azo a um outro tipo de criatividade, como, por exemplo, os humoristas. 

Apesar dos bons exemplos do pós 25 de Abril, dar-se-á o exemplo que precede o golpe militar. Acontece que durante o Estado Novo os caricaturistas, com o recurso ao trocadilho, conseguiram sobreviver financeiramente, fugir à censura e consequentemente à cadeia. Numa época em que o sexo era um tabu, estes artistas apoderaram-se inteligentemente da sensualidade do corpo feminino e do seu erotismo como uma arma humorística e satírica para descrever o exagero conservador do estado. Foi sem espantos que, devido a este tabu sexual instalado, facilmente se vendiam revistas e jornais, se na capa colocassem uma figura feminina mais arrojada (figura 1).Mas, como expõe Patrícia Reis, nem todos os humoristas são casos de sucesso em tempo de crise, porque a Troika coloca pressão sobre tudo e todos e cria-nos alguma instabilidade emocional com que muitos não conseguem lidar. Não nos deixa menos criativos, mas limita-nos. Nesta senda, a oradora aponta para alguns factores mínimos de modo a que um indivíduo consiga manter alguma estabilidade emocional. Refere que para sermos minimamente felizes precisamos comer bem, vestir bem e um lugar para dormir.

José Manuel Fajardo remata que para sermos felizes é necessário que se possua a capacidade de auto consciência, capacidade esta que nos permite avaliar se somos e se merecemos ou não ser felizes. Aponta para o facto deste conceito de felicidade, ou seja, desta tomada de consciência ser recente, porque outrora precisávamos passar pela floresta de lágrimas e no fim, após a morte, só então seríamos felizes.

Para terminar, e no âmbito da felicidade colectiva, Inês Pedrosa abordou Karl Marx e a obsessão que este tinha em a construir. Marx almejou tanto o alcance da felicidade colectiva que se esqueceu de ser e fazer os seus familiares felizes. Longe desta ideia a sociedade de hoje valoriza o individualismo em detrimento do colectivo. No passado ou no presente, de forma comedida em ditadura ou com a Troika fomos felizes, fomos criativos, cada um à sua maneira. Mas sabemos que também fomos e nos sentimos muito infelizes. O meio-termo, a igualdade como o princípio da felicidade individual e colectiva não existe. Avançar para o futuro com um desígnio comum: de ser e fazer os outros felizes ainda tem que ser construído. Este caminho depende não só da vontade dos políticos e dos mercados financeiros como de todos nós. 

Narciso Ornelas 
28 de Março de 2012 

Referências Bibliográficas
SOUSA, O. (1991). A Caricatura Política em Portugal. Edição Salão Nacional de Caricatura, Lisboa.


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