O sucesso sem futuro - texto do artista plástico Daniel Melim com ilustração de Narciso Ornelas


O sucesso sem futuro

   Uma árvore não é o futuro de uma semente, é mais a estrela que a guia. Quem sabe se ela vai rebentar ou não. Quem sabe se, rebentando, o fará num local que tenha luz e água e abrigo suficiente para crescer mais e mais um pouco até: braços verdes, ramos de quase nada, e ainda outros braços verdes e mais tenros, na verdade pequenas folhas na ponta. Unidas por uma vontade de árvore, as terminações que irradiaram da rebentada semente começam a dizer extensões por todo o espaço, seguindo as lógicas que estavam a dormir lá dentro. E quem sabe se uma retroescavadora ou mão que cuide outras coisas a levará a morrer antes de passar da altura de um joelho humano? E quem sabe se passando, ela sobreviverá a expropriações do quintal onde é um dia da altura do peito de um homem, ou às mudanças de humor das gerações? “Árvore” guia todas estas expansões e sobrevivências a partir de um centro semeado, como se cada galho e ramo e raminho perseguissem na sua marcha as mil imagens refratadas de uma única árvore-estrela. Mas nada é garantido, a não ser a água quando há água, carinho quando há carinho, sol nas horas certas sem nuvens. Renovada canseira de esperar e apenas ter garantida a espera.

   Gostava de saber se uma planta que não chega a árvore é um insucesso, se é assim tão inútil pelo caminho e se o mesmo se passa com os homens. Se todo o infinito mar de riso e lágrimas que experimentamos enquanto cada dia só vale se completarmos o projeto, se a casa, se a relação, o filho, o cargo de poder, portas de ouro. A caminho do que quer que nos guie, este ténis furado pelas silvas terá no teatro da sua dor a prova triste da nossa inaptidão competitiva ou valem as texturas do mundo pelo que em nós aprofundam neste momento?

 Nas grandes marcas, nos governos, os fazedores de objetivos morrem de medo de reviver os momentos em que as suas jovens pétalas foram pisadas. Mais ainda: uma só floração na ala oeste da planta, uma só palavra de amor à sombra da pedra no antigo cais: os tiranos de turno morrem de medo de submergir de novo na emoção dos momentos em que foram realmente felizes e pequenos, sem futuro nem projetos. 

Daniel Melim 


Ilustração: Narciso Ornelas

Técnica: Desenho digital (photoshop)

Ano: 2013


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